DE LETRA
Com o Profº Gilson Figueiredo
DÚVIDAS MAIS COMUNS II
O usuário da língua portuguesa sempre terá dificuldades vocabulares a serem superadas. Diante disso, elencamos os erros mais comuns de linguagem. Não é desiderato nosso, porém, inventariá-los de forma rigorosa. Antes, esperamos alertar sobre a necessidade de uma busca incansável às informações da boa comunicação para um crescente aprimoramento dos mecanismos da linguagem e, em particular, para o uso correto das expressões da língua padrão. O nosso compromisso é com a comunicação correta. Os lingüistas – alguns idiotas ou ociosos – defendem apenas entendimento da expressão. Precisamos entender que os concursos ou vestibulares exigem uma linguagem formal, não aquela de mesa de bar. Vamos dar continuidade ao trabalho já iniciado na última segunda-feira.
1. “É verdade que a palavra “Barzinho” está errada?”
BAREZINHOS é o plural de barzinho. Palavras diminutivas que aparecem com o sufixo zinho devem passar pelo seguinte processo de pluralização: 1) separe a palavra original do zinho (bar – zinho); 2) coloque as duas formas no plural (bares – zinhos); e 3) elimine o s da palavra original, porque ele não pode ficar ao lado da letra z (bare – zinhos). Pronto: barezinhos. O mesmo acontece com coroneizinhos (coronéis – zinhos), pasteizinhos (pastéis – zinhos), mulherezinhas (mulheres – zinhas), etc. Essa regra só vale para os diminutivos que possuam a terminação zinho (com z). Se a terminação for inho, o plural é o comum, com a simples posposição da letra s: carrinho – carrinhos; chefinho – chefinhos; etc.
2. “Gostaria muito de usar conscientemente o pronome cujo. Quero ver a sua explicação.”
Para usar corretamente o pronome relativo cujo, tenha em mente que ele estabelece uma relação de posse entre dois elementos: o que vem antes dele e o que vem depois. Por isso, o cujo sempre estará entre dois nomes: antes dele virá o possuidor; depois dele, a coisa possuída. Exemplo: Conheço a mulher cujos cabelos são azuis.
Outro detalhe importante a ser observado na construção de frases com o relativo cujo é o emprego das preposições (a, de, com, para, em, etc.). Como todo pronome relativo, introduz um verbo, além de retomar um nome. Se esse verbo exigir uma preposição, esta deverá, obrigatoriamente, ser colocada antes do relativo. Exemplos: Eis a garota contra cujos pais Henrique lutou (cujo introduz o verbo lutou, que exige a preposição contra). O autor de cujos livros tanto se fala está no Brasil (quem fala fala de algo; de vai antes de cujos); etc.
3. Aprendi que combinando a preposição de com o artigo definido o, temos do. Quando essa combinação não é possível?
Em apenas dois casos: 1) Não se pode fazer “contração” de uma preposição com artigo que faz parte integrante do sujeito, visto que sujeito não começa com preposição. Não se diz, portanto: Chegou o momento do juiz decidir. O termo “o juiz” é o sujeito do verbo decidir e, conforme a norma da língua, há erro. Basta o artigo antes da palavra juiz. Assim: Chegou o momento de o juiz decidir.
Não se faz também contração de preposição com o pronome que funcionar como sujeito. Ex.:
É tempo de ela criar juízo (e não: é tempo dela criar juízo).
Outros exemplos:
Chegou a hora de o povo se manifestar (e não: do povo)
Apesar de a comida está salgada (E não: da comida)
2) Outro caso: Não se devem juntar preposições (de, em, a, etc.) com artigos (o(s), a(s), um, uma, uns, umas) que iniciem nomes de obras literárias, jornais, revista etc. Logo, dize-se “Li essa matéria em O Dia”. Gosto de Os Lusíadas (e não dos Lusíadas).
4. Existe algum erro quando digo assim: “Foram três as vítimas fatais”?
Não. Não existe e não se deve dizer “vítima fatal”.
Fatal significa que “causa a morte, mortífero, inevitável, que traz ruína ou desgraça”. Se fatal causa a morte, a vítima não pode produzir a morte, ela recebe a morte, sofre um acidente. Realmente, fatal é o acidente (uma batida, um tiro, uma facada, etc.) Portanto, não existe “vítima fatal”.
5. “Qual a diferença entre fronteira, limite e divisa?”
Fronteira emprega-se entre países. Exemplos: Brasil faz fronteira com a Argentina. / Itália faz fronteira com a Suíça.
Divisa emprega-se entre Estados. Exemplos: Piauí faz divisa com Maranhão. / São Paulo faz divisa com Minas Gerais.
Limite emprega-se entre municípios. Exemplos: Teresina faz limite com União. / Parnaíba faz limite com Luís Correia.
6. “O professor Ismar Tavares – candidato a prefeito em Teresina – diz constantemente: “Faz um 21”. É verdade que há erro nessa frase?”
Em primeiro lugar, vamos conjugar o verbo fazer em dois tempos: presente do indicativo (eu faço, tu fazes, ele faz...) e presente do subjuntivo (aquele no qual geralmente usamos a palavra que antes do verbo: que eu faça, que tu faças, etc.):
Certo. Agora, para construir o imperativo afirmativo, devem-se "emprestar" o TU e o VÓS do primeiro presente (indicativo), cortando-lhes o s final: tu fazes e vós fazeis. Sem o s, transformar-se-ão em faze e fazei. Pronto! Já se têm o tu e o vós do imperativo afirmativo. O resto (você, nós e eles) serão idênticos ao segundo presente (do subjuntivo): faça você, façamos nós, façam vocês. Você reparou que, no imperativo, não existe ele e eles? Existe você e vocês, pois não podemos dar ordem a ele ou a eles, que é alguém de que se fala. E, obviamente, não existe eu, pois não se costuma dar ordem a si mesmo. O imperativo afirmativo ficou assim, então:
FAZE tu (tu fazes)
Faça você (idêntico ao presente do subjuntivo: que ele faça)
Façamos nós (idêntico ao presente do subjuntivo: que nós façamos)
Fazei vós (vós fazeis)
Façam vocês (idêntico ao presente do subjuntivo: que eles façam)
Realmente a forma correta é “faze um 21”. Gramáticos modernos, entretanto, já admitem a forma FAZ, para a pessoa tu, que, aliás, é muito mais natural. Já imaginou alguém dizendo Faze um 21? Já se foi o tempo em que tínhamos de escrever expressões arcaicas para que o nosso texto fosse considerado bom e erudito.
7. Há diferença entre plebiscito e referendo?
Plebiscito é uma consulta à população sobre um assunto importante e polêmico, sobre questão específica, geralmente por meio de votação “sim” ou “não”. Juridicamente, é a manifestação da vontade popular, ou da opinião do povo, expressa por meio de votação, acerca de assunto de grande interesse político ou social. Na Roma antiga, tratava-se de um decreto aprovado em comício popular, originariamente obrigatório apenas para os “plebeus”.
Referendo é também uma consulta à população, ao eleitorado, para aprovação ou rejeição de medidas já propostas ou aprovadas por um órgão legislativo. Por extensão, é a manifestação de um grupo mais ou menos considerável de pessoas, especialmente por meio de votação, sobre questão submetida à sua opinião.
8. Trouxe uma boa quantia de frutas ou Trouxe uma boa quantidade de frutas?
Não confunda quantia com quantidade. A segunda das frases é a correta. Quantia é empregado para dinheiro, para somas em dinheiro. Exemplo: Ele trouxe uma boa quantia para as despesas de casa. Também não é correto dizer: Trouxe uma boa quantia de dinheiro. Basta dizer: Trouxe uma boa quantia.
Quantidade, por sua vez, é uma grande porção de pessoas ou de coisas. Mais exemplos: A quantidade de atropelamentos em São Paulo é apavorante. / A quantidade de frutas que trouxe dá para a semana toda.
Não existe: quantia de gente, quantia de alunos...